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A mulher ferida – O livro que todo pai de menina deveria ler

A MULHER FERIDA (Resumo)

EM BUSCA DE UM RELACIONAMENTO RESPONSÁVEL ENTRE HOMENS E MULHERES
LINDA S. LEONARD, 1997

À medida que fui chegando mais perto da adolescência, os sentimentos confusos a respeito de meu pai cristalizara-se em ódio.Desidentifiquei-me por completo dele e tentei me tornar avessa a tudo que representava.
Na escola, era a aluna “Caxias”, esforçada, séria. Apesar de ser a “queridinha dos professores” também conseguia dar-me bem com os colegas, sendo agradável e alegre, retraída e maleável. Por fora, era doce e séria; por dentro, era aquela confusão terrível: um ódio virulento contra meu pai, a vergonha invencível de ser sua filha e o temor de que alguém viesse a descobrir quem eu era de fato.

Depois de reconhecer em mim esses dois extremos opostos comecei a analisar os padrões psicológicos que denominei a eterna menina (a puella aeterna) e a amazona de couraça.

À primeira vista, essas mulheres parecem muito bem-sucedidas: profissionais confiantes, donas de casa satisfeitas, estudantes despreocupadas, divorciadas disponíveis. Porém, logo abaixo da camada fina de sucesso ou de contentamento, está uma pessoa machucada, encontra-se o desespero oculto, acumulam-se os sentimentos de solidão e de isolamento, há o medo de serem abandonadas e rejeitadas, guardam-se as lágrimas e a ira.

À medida que a filha vai crescendo, sua evolução emocional e espiritual sofre uma profunda influência de seu relacionamento com o pai. Ele é a primeira figura masculina de sua vida e o elemento crucial na formação dos parâmetros pelos quais se pautará para relacionar-se com o lado masculino de sua pessoa e, em última instância, com os homens.

Um dos papéis paternos é conduzir a filha do protegido ambiente materno e doméstico até o mundo exterior, ajudando-a a enfrentá-lo em seus conflitos. Funciona como modelo de autoridade, de responsabilidade, de tomada de decisões, de objetividade, de ordem e de disciplina. Alguns pais erram por indulgência. Por não terem estipulado limites para si próprios, por não terem sentido sua própria autoridade interior e não terem estabelecidos um critério interno de ordem e disciplina, constituem modelos inadequados para a filha. Tais homens são os “eternos meninos” (os puer aeternus). Aqueles que se identificam fortemente com esse deus da juventude permanecem fixados nos estágios adolescentes do desenvolvimento. Podem ser sonhadores românticos que evitam os conflitos da vida prática, incapazes de se comprometer. São homens que costumam viver no reino das possibilidades, evitando a dimensão concreta das coisas; sua vida é sempre provisória. O pai que é um eterno menino tem, em geral, uma “mãe” como esposa.

Quando o pai é fraco ou indulgente e a mãe é forte e controladora, a filha tem um duplo problema. Não só o pai não consegue funcionar como modelo masculino como não enfrenta a esposa nem ajuda a filha se diferenciar dela.

A eterna menina é uma mulher que permaneceu psicologicamente menininha. O mais freqüente é que aja e pareça inocente, desamparada e passiva. Pode também se revoltar, mas, em sua rebeldia, continua sendo vítima desamparada que oscila entre sentimentos de autocomiseração, de depressão e de inércia.

Com grande freqüência, a mulher que permanece uma eterna menina não conseguiu identificar e integrar as qualidades que um pai positivo pode ajudá-la a desenvolver: consciência, disciplina, coragem, tomadas de decisão, autovalorização, direção.

A “amazona de couraça” é um padrão contrastante na vida de muitas mulheres. Numa dimensão de desenvolvimento, encontro-o quando surge como reação contra a prática inadequada do homem como pai, que ocorre tanto em nível pessoal como cultural. Quando reagem contra o pai negligente, essas mulheres em geral identificam-se em nível de ego com as funções masculinas ou paternas. Nessa medida, desenvolvem uma poderosa identidade de ego masculina, mas essa identidade masculina é, em geral, uma concha de proteção, uma armadura ou couraça contra a dor do abandono ou da rejeição pelo pai, uma proteção contra sua própria suavidade, fraqueza e vulnerabilidade.

Nas mulheres em geral, ambos os padrões coexistem. Talvez a maior ferida que o homem sofra seja a de não admitir sua própria ferida: ser incapaz de chorar.

A eterna menina

Esse papel passivo é um dos caminhos para as mulheres que vivem o padrão da “eterna menina”. A dificuldade para esse tipo de puella é que ela tenta viver por completo no domínio das possibilidades, ignorando as limitações e as realidades dos outros e de si mesma. A ênfase muito excessiva na conquista da atenção e da admiração dos homens pode aparecer tanto na bonequinha queridinha como na despreocupada e desajustada. A ênfase na imaginação marca a puella tímida e frágil, assim como a despreocupada, embora esta concretize no mundo os vôos de sua imaginação, ao passo que a menina de vidro afasta-se do mundo para dentro de sua imaginação.

Um elemento comum a todos esses padrões pueris é o apego ou a uma inocência ou a uma culpa absolutizada, que são os dois lados de uma mesma moeda, capaz de alimentar a dependência de outrem que reforce ou condene os atos. Existe em todos a relutância em responsabilizar-se pela própria existência, a ausência de tomadas de decisões e de discriminações; é o outro que se incumbe disso. O relacionamento com os limites e as fronteiras também é precário: ou a recusa em aceitá-los ou a sua “ilimitada” aceitação. A puella conduz sua vida no âmbito das possibilidades, e evita a realidade dos compromissos.

A puella precisa aceitar seu potencial de força e desenvolvê-lo a fim de efetuar a concretização do mesmo; precisa ainda comprometer-se com seu ser misterioso e singular. A adaptação do ego da puella foi, precisamente, ser fraca: ser passiva e desempenhar o papel desejado para ela e pelos outros. O que se exige de uma puella em seu processo de autotransformação é que renuncie a seu apego á dependência, à inocência e à impotência infantis e que aceite a força que já está ali: que realmente se valorize. Se ela aceitar sua força e poder, sua inocência de menina irá se manifestar como ela jovial e feminino, como vigor, como espontaneidade e abertura a novas experiências que possibilitem um relacionamento criativo e produtivo.

A amazona de couraça

Se uma mulher teve um pai negligente ou irresponsável, ou seja, não presente emocionalmente para sua filha, um dos padrões que costuma emergir é o da reação contra ele. Nesses casos, é provável que a filha rejeite o pai (e até mesmo os homens em geral) em nível consciente, pois a experiência lhe revela que ele não é confiável. Quando não ocorre essa reação psicológica, a tendência é a identificação inconsciente com o princípio masculino. A amazona se identifica com a força e o poder masculinos.

Talvez um dos modos mais freqüentes de reagir a um pai irresponsável seja fazer o que ele não fez dos setores de trabalho e realizações. A questão crucial é perceber o valor que tem a religação com o feminino, compreendendo o que é que é essencial para ser mulher e valorizando esse dado. Dentro desse padrão de guerreira, o pai e, em geral, todos os outros homens são rejeitados e desprezados como seres fracos, e a filha acha que só ela é forte o suficiente para fazer o que precisa ser feito. A ironia está em que o caminho dessa força é moldado por um modelo masculino e, por isso, o feminino ainda continua sendo desvalorizado por esse tipo de mulher. É bastante comum perceber-se em tais mulheres os dentes rangendo, a determinação inabalável. Para as que vivem segundo esse tipo de existência, a vida se torna uma missão e uma série de batalhas a serem vencidas, em vez de uma sucessão de momentos a serem desfrutados.

O principal traço da amazona de couraça é seu desejo de controlar. Estar no controle torna as coisas seguras. Junto com o controle, no entanto, costuma vir uma dose exageradas de responsabilidades, deveres e a sensação de exaustão.

Um outro aspecto da transformação da amazona de couraça é se libertar da ideia de que precisa ser como um homem para ter poder. Se a amazona não pretende ter um esgotamento, precisa suavizar sua couraça; com isso terá mais facilidade em encontrar uma forma criativa de relacionar-se com o feminino e com a feminilidade dos homens. Essa parece ser também uma questão crítica para nosso momento histórico, porque a mulher de couraça, na luta por seus direitos, tem precisado realizar essa batalha com os homens num confronto direto de poderes em oposição. Tem sido preciso que ela empunhe a espada e lute como homem. No entanto, como Orual, com sua espada, escudo e máscara, fica destituída de relacionamentos.

Talvez, pelo fato de sua identificação primária ser com o masculino, sua couraça posa ser suavizada por uma figura masculina amorosa.

IRA

A ira pode ser uma força essencial para redimir o pai e transformar o feminino. É comum que, quando há uma grande ira decorrente de uma relação negativa com o pai, ela também seja vivenciada com o parceiro amoroso. Ás vezes, devido à rejeição e ao abandono sentidos a partir da ira do pai, as lágrimas e a ternura FICAM VELADAS, JUNTO COM A RAIVA.

As lágrimas pertencem à mulher ferida. Essas lágrimas congeladas são capazes de transformar o homem em pedra; o coração da mulher também pode ficar duro como pedra.

A CURA

São muitas as mulheres privadas de uma vida emocionalmente rica por ter medo de receber o que os outros têm para lhe dar. Ela pode dar recebendo e pode adaptar-se e acomodar-se aos outros, permitindo dessa forma o diálogo nesses relacionamentos.

A menina de vidro pode inspirar a criatividade em si e nos outros, caso não se entregue à sua tendência de recuar diante da vida. A busca de desafios e aventuras por parte da despreocupada é uma força que leva a mudanças e á investigação de novas possibilidades.

A força da desajustada está em sua capacidade de questionar os valores coletivos consagrados. A superstar, com sua disciplina e capacidade de vencer, mostra ao mundo a força e a competência femininas. A capacidade que a filha conscienciosa tem de ser responsável e de tolerar a adversidade é uma qualidade essencial á estabilidade da vida, do trabalho e das relações. A tendência da mártir para dar e sacrificar-se é essencial à vida criativa e aos relacionamentos. A rainha guerreira está sintonizada em sua ira e auto-afirmação. Sabe como lutar para sobreviver e pode tomar conta de si mesma.

Redimir o pai exige que seja reconhecido o valor que ele tem a oferecer. Nesse sentido, a redenção do pai pode desencadear o re-sonhar o pai, ou seja, uma fantasia feminina a respeito do que ele poderia ser e fazer. As mulheres precisam contar suas histórias. Precisam dizer aos homens o que esperam deles. Na qualidade de guia, deve oferecer-lhe tanto apoio como conselhos, e encorajá-la a ser independente e investigar as coisas por si mesma.

Ao acreditar em sua força, beleza, inteligência e capacidade, se orgulhará dela. Entretanto, não deverá projetar seus próprios desejos insatisfeitos em sua filha, nem se mostrar dependente, ou exageradamente protetora. Deve, em vez disso, afirmar a singularidade dela como indivíduo, respeitando e valorizando sua pessoa, sua personalidade, sem porém esperar que assuma responsabilidades além das que sua idade lhe permitir.

Se o pai respeitasse sua esposa como parceira forte, independente e competente, e não tratasse a esposa como filha, sendo autoritário, nem como mãe, sendo-lhe submisso, estaria apresentando um modelo de bom relacionamento conjugal para a filha e também um modelo do respeito que o homem e a mulher devem ter um pelo outro. O pai fornece o elo para uma relação segura com o sexo oposto, os homens. Redimir o pai é também redimir o feminino em si mesma; é de fato valorizar essa modalidade.

A puella costuma adotar uma visão coletiva do feminino aceitando suas projeções e sendo o que o outro quer. A amazona de couraça, ao imitar o masculino, desvaloriza o feminino na medida em que, de maneira implícita, aceita o masculino como superior. As mulheres estão começando a se dar conta de que os homens sempre definiram a feminilidade através de suas expectativas conscientes do que as mulheres podem ou não fazer através de suas projeções inconscientes nelas. Isso teve como resultado uma visão distorcida não só das mulheres, mas também do lado feminino interior dos homens.

O espírito feminino, que tem a coragem de encarar tanto a ferida como o poder da ira e das lágrimas, pode curá-los ao dar o devido valor ao poder cíclico natural do crescimento sazonal e á capacidade que a natureza tem de receber as novas sementes da criatividade.

Acredito que todas as mulheres possuem os dois “perfis”, em maior ou menor grau.

Predomina em mim, a amazona de couraça, no entanto, já iniciei o processo de cura, permitindo que algumas características femininas como fragilidade apareçam.