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O único homem que não me decepcionou

Falar de vovô é algo difícil, mas belo. Quando comecei a me entender por gente ele era vereador da pequena cidade onde morávamos, logo tornando-se prefeito. Eu o via como o homem mais inteligente e eloquente do mundo, sempre em cima de um palanque falando sobre injustiças e as soluções que queria tomar.

Em minha frágil avaliação ele foi um homem revolucionário, dizem que  tinha apenas o primeiro grau (ensino fundamental), que importa, sua sapiência não era escolástica, apesar do nível de instrução fez história, tanto que dá nome ao Hospital Municipal de minha cidade natal.

Não, ele não era apenas meu avô, ele era meu modelo de homem, o homem que figurava como meu pai, o homem que nunca me decepcionou. Não falava muito comigo, mas sempre me deixava ficar com ele, mesmo calado ministrava lições importantes,  não era perfeito, sempre soube disso, também ouvia as discussões com minha avó, quem é santo!

Sim, sempre quis ser como ele, articulada, todos calavam-se para ouvi-lo, até tiro levou, de raspão! Batalhador e vencedor, mas quieto. Ás vezes monossilábico, tomando seu chimarrão e fumando seu cigarro, confesso, experimentei fumar o cigarro dele, queria sentir o que ele sentia, sorte que não gostei, era forte demais.

Lembro-me da saída da escola, meu caminho era a prefeitura, sentava no gabinete dele, tomava um cafezinho e esperava-o para ir pra casa (morei na casa dele até os 10 anos, foi péssimo mudar), como sentia orgulho, eu era neta dele, a primeira neta, e afilhada, até meu padrinho aceitou ser. Enchia o peito para falar: sou neta do Quinto Abraão Delazeri.

Depois de sair da prefeitura (o mandato era de 6 anos na época), quando necessário, eu o ajudava na loja de sapatos, desmembrada da loja de roupas, eram horas de silêncio ou horas vendo-o ler o jornal, de cabo a rabo, ou ouvindo-o conversar sobre política com o amigo e rival político depois de desmembrar o PMDB em PSDB. E com ele aprendi a ouvir, e a silenciar. Tomar chimarrão também. Lembro-me das poucas vezes que chamava minha atenção, nunca precisou falar mais de 3 palavras para eu me envergonhar diante dele e me sentir traidora do seu amor.

Quantos cafés batidos fiz, só para ele, e adivinha, comecei a gostar também. E as canastras com os compadres, eu sempre ali pajeando, ele poderia precisar de mim a qualquer minuto. Lembro do cheiro dele, algo muito sui generis,, indescritível, tenho certeza que suas roupas ainda exalam seu odor.

Quando soube da sua morte, que era inevitável, ele sempre foi mais velho que eu, é obvio que morreria antes de mim, perguntei a Deus, por que ele!!!!???? O único homem que confiava jazia morto, e agora, o que seria de mim???

Pasmem, eu já estava na faculdade e ainda não aceitava que ele era humano também, no entanto, algumas pessoas de nossas vidas nunca morrem, para mim ele não morreu, ele vive em minha memória, desculpe pai biológico, mas ele é e foi meu verdadeiro pai. O homem que ainda procuro, quieto, mas decidido, sem luxo, mas perspicaz e justo.

Nunca o vi cometendo atos de violência ou agressividade, sempre conversando com todos, sem distinção, sem preconceito; pena que se foi cedo; eu tinha tanto a aprender ainda…..

Deixo aqui, meu agradecimento, obrigada pelo exemplo (alguns ruins, eu soube distinguir), pelos olhares, pela convivência, pela companhia. Espero também não ter te decepcionado!