O que é Transtorno de excitação genital persistente?

O problema foi descrito em 2001, mas em 2003,  um grupo de especialistas definiram o transtorno como “excitação genital espontânea, intrusiva e indesejada na ausência de interesse ou desejo sexual. Qualquer consciência de excitação subjetiva é tipicamente desagradável. A excitação não é aliviada por um ou mais orgasmos e as sensações de excitação persistem por horas ou dias”.

Há relatos de associação entre o transtorno e o excesso de consumo de alimentos à base de soja, de exacerbação de sintomas durante o sono em uma mulher na menopausa e da possível associação entre a retirada de medicamentos antidepressivos inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRS) e o surgimento de sintomas do transtorno.

Há uma proposta de cinco subcategorias diagnósticas para o transtorno, baseadas na provável causa principal: Seriam elas:

  1. hipersensibilidade pélvica/sexual – há um dramático e inapropriado aumento das sensações neurológicas sexuais em uma excitação intensa e prolongada;
  2. variante da síndrome de congestão pélvica – há uma dilatação desorganizada no sistema de veias responsáveis por drenar o sangue da pélvis e órgãos genitais, levando a uma congestão sanguínea desses locais;
  3. tipos neurológicos – tanto por uma falha neurológica causada por uma lesão sutil ou alteração na resposta de um neurotransmissor;
  4.  Associado a causa hormonal – fase refratária ausente ou mínima após o orgasmo ou aumento da excitação sexual decorrente de problemas hormonais; o início pode coincidir com o princípio da menopausa ou os sintomas podem estar presentes em determinadas fases do ciclo menstrual; e
  5. Variante da síndrome de Tourette – associado com tiques, masturbação compulsiva, pensamentos intrusivos e histórico familiar de Tourette ou transtorno similar. Tecnicamente, seria um tipo de transtorno obsessivo-compulsivo (TOC).

Desde 2004 quando Basson e colaboradores publicaram um trabalho em que revisavam as definições das disfunções sexuais femininas definiu-se que a excitação sexual feminina pode ser classificada como subjetiva (também chamada de desejo) e genital (aumento da vascularização genital com consequente lubrificação propriamente dita). Desse modo, mulheres podem apresentar respostas físicas características da excitação e não se perceberem sexualmente excitadas (não sentirem desejo por sexo, não sentirem-se estimuladas subjetivamente em seu cérebro).

A partir desse novo entendimento, os transtornos relacionados à fase da excitação foram divididos em quatro: transtorno da excitação sexual subjetiva; transtorno da excitação sexual genital e subjetiva combinada; transtorno da excitação sexual genital; e, mais recentemente, tem sido descrita essa condição que afeta predominantemente mulheres, o transtorno da excitação genital persistente.

Afinal, quem pode ser diagnosticada com esse transtorno?

Desde sua primeira descrição em 2001, os critérios diagnósticos do transtorno da excitação genital persistente foram estabelecidos como:

  1. Sinais característicos de excitação sexual (plenitude genital/inchaço e sensibilidade com ou sem ereção ou inchaço do mamilo) que persistem por um período extenso de tempo (horas ou dias) e não desaparecem completamente por si só.
  2. Sinais de excitação física, os quais não se resolvem com experiências orgásticas habituais e podem exigir orgasmos múltiplos por horas ou dias para desaparecerem.
  3. Sinais de excitação são geralmente experimentados e não estão relacionados a nenhum sentimento subjetivo de excitação ou desejo sexual.
  4. A excitação genital persistente pode ser disparada não somente por atividade sexual, mas aparentemente também por estímulos não sexuais e até mesmo nenhum estímulo aparente.
  5. Sinais são experimentados como espontâneos, intrusivos e indesejados e provocam na mulher sentimentos de angústia e preocupação.

Apesar da semelhança com o quadro de hipersexualidade, existe um fator diferenciador entre as duas condições. A hipersexualidade é caracterizada por um aumento excessivo do desejo sexual. Nas mulheres com transtorno da excitação genital persistente, não existe um relato de aumento do desejo sexual. A literatura indica que essas mulheres experimentam redução no desejo e interesse sexual, por receio de iniciar um episódio do transtorno.

Apesar dos avanços no conhecimento do transtorno, não há consenso na literatura sobre as possíveis causas e fatores de risco envolvidos no surgimento e manutenção destes.

Algumas hipóteses foram listadas na literatura, baseadas nos relatos de casos disponíveis:

  1. alterações neurológicas centrais (exemplo: pós-injúria, lesões cerebrais específicas);
  2. alterações neurológicas periféricas (hipersensibilidade do nervo pélvico);
  3. alterações vasculares (congestão pélvica, varizes pélvicas);
  4. pressão mecânica sobre estruturas genitais;
  5. alterações induzidas por medicação;
  6. alterações psicológicas (estresse, ansiedade) ou, ainda,
  7. uma combinação de todos ou alguns fatores.

A literatura disponível sobre o transtorno baseia-se principalmente em relatos de caso. Os relatos oferecem a oportunidade de levantar hipóteses em relação aos fatores psicológicos, neurológicos, fisiológicos, farmacológicos e vasculares envolvidos na etiologia do transtorno, porém, como muitos dos casos apresentam causas diferentes, não foi possível chegar a um consenso sobre que fatores estão envolvidos no surgimento e na manutenção do Transtorno de Excitação Genital Persistente.

Os casos apontam para uma relação entre o transtorno e o uso de medicação antidepressiva, mas não é possível estabelecer uma relação temporal entre os dois. Alguns estudos relatam o surgimento após a retirada da medicação, enquanto outros relatam a coincidência entre o início do uso da medicação e o surgimento dos sintomas. Nem todos os casos relatam uso de medicação antidepressiva. Sugere-se que outros fatores possam estar associados ao transtorno.

Alguns estudos sugerem que alterações físicas como varizes na região pélvica tenham papel fundamental no surgimento do transtorno e que a presença de varizes seja um fator de risco para o problema. No estudo que correlaciona varizes pélvicas como fator de risco, o número de mulheres com varizes pélvicas é maior que a encontrada na literatura, além disso o Transtorno de Excitação genital persistente pode estar associado com síndrome das pernas inquitas e com a bexiga hiperativa.

É importante frisar que, para o diagnóstico do transtorno, é necessária a presença de pelo menos um grau moderado de angústia. Muitas mulheres relatam respostas físicas de excitação espontânea, mas nem todas as interpretam negativamente. Isso pode evidenciar que a ansiedade possui um papel determinante na manutenção do quadro, aumentando ainda mais a consciência dessas mulheres em relação a pequenas alterações físicas na sua região genital.

 

Basson R, Leilblum S, Brotto L, Derogatis L, Fourcroy J, Fulgl-Meyer K, et al. Revised definitions of women’s sexual dysfunction. J Sex Med. 2004;1:40-8.

Craig HR. Persistent sexual arousal syndrome (PSAS): possible etiologies and potential therapies. 2006.

Pereira, VM, Silva, ACO,  Nardi, A E. Transtorno da excitação genital persistente: uma revisão da literatura. J. bras. psiquiatr. [online]. 2010, vol.59, n.3 , pp.223-232.