Bissexualidade como manifestação original do ser humano

Partindo do princípio de que a sexualidade é formada pelos aspectos biológicos, psicológicos, pela identidade sexual, pelo papel sócio sexual e pela orientação sexual; além das formas de vida social e seus atuais costumes, este artigo analisa as bases biológicas e psicológicas da bissexualidade, entendendo que há uma pluralidade na sexualidade humana e uma expressão na sociedade contemporânea que sofre constantes modificações.

Desta forma este artigo pretende problematizar e trazer a luz da discussão os fatores intrínsecos da bissexualidade. O tema central da discussão refere-se à bissexualidade como manifestação original do ser humano e não como um contínuo entre heterossexualidade e homossexualidade ou uma fase de transição de um modelo binário. A bissexualidade é natural e biologicamente programada?

Historicamente a palavra bissexual foi usada do século XVII ao início do século XX para se referir a pessoas atualmente chamadas hermafroditas ou intersexuais, ou seja, cujos corpos tem uma combinação de características biológicas ou anatômicas femininos e masculinos. (MARCHETTI, 2001 apud LEWIS, 2012, p. 26)

Ao final do século XIX e no século XX a psicanálise usou o termo bissexual para se referir às pessoas com suposta combinação de masculinidade e feminilidade psicológica, sugerido o termo “hermafroditismo psicossexual pelo psiquiatra e sexólogo austríaco-alemão Richard von Krafft-Ebing, além de ser usada nas obras iniciais do sexólogo britânico Havelock Ellis. (Storr, 1999 LEWIS, 2012, p. 26). Essa noção de hermafroditismo psicossexual foi desenvolvida e popularizada por Freud, usando o termo bissexual em suas obras.  (Freud {1905} 2006; Heenen-Wolff, 2010 apud LEWIS, 2012,  p. 26)

Em duas notas de rodapé do capítulo IV de “O mal-estar na civilização”, Freud ([1930]1996) argumenta sobre uma possível relação entre aspectos biológicos, sociais e psicológicos que estariam na base do mal-estar (da civilização), considerando a disposição bissexual do ser humano.

Atualmente a palavra bissexual tem sido usada para indicar um desejo sexual que combina ou une a heterossexualidade e a homossexualidade. No entanto isso não quer dizer que as práticas bissexuais propriamente ditas, sejam recentes. Mengel (2009 apud LEWIS, 2012,  p. 26-27) relata que as práticas bissexuais descritas atualmente existem desde a Idade da Pedra, existindo vasta documentação história sobre práticas bissexuais masculinas e escassas descrições das práticas femininas, dentre as considerações históricas pode-se citar a pederastia na Grécia antiga, onde era comum um homem casado com uma mulher manter uma relação símile a conjugal, tanto sexual quanto afetiva, com um adolescente ou jovem adulto, sendo considerada socialmente como um intercâmbio entre professor e aluno, onde além de conhecimento sexual era transferida formação filosófica. Para os gregos o desejo provinha da atração para a beleza das pessoas, sem considerar o sexo biológico. (Mengel, 2009; Turiño, 2009 apud LEWIS, 2012,  p. 28-29)

Outro exemplo de práticas bissexuais na antiguidade vem do Japão feudal, onde na elite aristocrática japonesa era comum o Samurai adulto, geralmente casado com uma mulher visando a reprodução, tivesse relação sexual e afetiva com aprendiz mais jovem, ensinando o código moral dos samurais e o iniciando-o nas práticas sexuais; tais relações eram importantes para manter equilíbrio entre o yin (elemento feminino) e o yan (elemento masculino). (Mengel, 2009 apud LEWIS, 2012,  p. 30)

Na Roma antiga o que era importante para a aprovação social das relações sexuais entre homens não era a relação professor-aprendiz, mas sim a posição social. Assim como na Grécia antiga, não se levava em conta o sexo biológico, eram aceitas as relações sexuais entre quaisquer parceiros, desde que respeitassem a ordem simbólica de dominação da época do homem na mulher, do mestre no escravo e do homem romano no homem estrangeiro. (Mengel, 2009 apud LEWIS, 2012, p. 30-31)

Em tribos e povos indígenas também eram comuns as práticas bissexuais, e em algumas tribos, acreditava-se que os jovens que recebiam por via oral ou anal durante anos o esperma de um homem adulto seriam transmitidas as virtudes da masculinidade. Além disso, nas tribos camaronesas de Beti e Bassa, durante problemas com a colheita, as mulheres casadas com homens se reuniam e dançavam tocando seus órgãos genitais mutuamente de uma maneira para que os clitóris ficassem alongados como pênis pequenos, convocando as forças da fertilidade da terra e coesão da tribo. (Mengel, 2009 apud LEWIS, 2012,  p. 31-32)

No âmbito da psicanálise, partindo da consideração freudiana sobre uma disposição bissexual, percebe-se a necessidade de ver no outro um auxílio diante dos dissabores do mundo e a luta constante para manter o objeto sexual próximo e aceito na comunidade. No entanto, há um custo para experimentar essa felicidade pela via do amor, pois se há a perda do objeto amoroso, e este é o elemento central da satisfação, expõe o indivíduo a um grande sofrimento, por vezes apaziguado quando se desloca o objeto isolado para o “amor social”, direcionado a todos os homens. (FREUD,[1930]1996)

Abdicar da bissexualidade é uma tarefa difícil, pois há o desejo, em todo ser humano, de pertencer a ambos os sexos, alimentando a fantasia de possuir sexualmente e identificar-se simultaneamente com homens e mulheres, ou mais especificamente com seu pai e sua mãe ou seus correspondentes. Além do fator biológico, é essencial entender o processamento da bissexualidade, que depende, do meio humano da qual a criança foi submetida, ou seja, quais transmissões inconscientes os pais passaram para a criança. Psicanaliticamente, a aceitação da castração implicaria em uma transformação da bissexualidade original; no entanto, a castração não é aceita sem resistência e sua negação mantêm o sujeito na sua bissexualidade original. (MCDOUGALL, 1999)

A bissexualidade pode ser analisada por três paradigmas, conforme Coleman, sendo o primeiro relacionado a distinção entre heterossexualidade e homossexualidade, vinculado ao pensamento patologizante, onde a homossexualidade e a bissexualidade eram doenças e a heterossexualidade corresponderia ao normal por oferecer possibilidade de reprodução. O segundo paradigma envolve a visão tricotômica heterossexualidade, bissexualidade e homossexualidade entendendo a sexualidade como um contínuo, sem deixar os órgãos genitais como fator preponderante para a orientação sexual. Já no terceiro paradigma busca-se a desconstrução do fator biológico da bissexualidade, reconhecendo que uma pessoa pode estar atraída a outra por outras razões que não se encerram apenas no órgão genital. (Coleman [1994,1998] 1999 apud LEWIS, 2012,  p. 36-37)

Percebe-se que a bissexualidade perturba as certezas homossexuais e heterossexuais, frequentemente é concebida simplesmente como uma combinação de graus de heterossexualidade e homossexualidade, o que reforça o sistema binário heterossexual/homossexual e os preconceitos.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

COLEMAN, Eli. Paradigmatic Changes in the Understanding of Bisexuality. Em HAEBERLE, Erwin J. e GINDORF, Rolf (orgs). Bisexualities: The Ideology and Practice of Sexual Contact with Both Men and Women. Trad. de Lance W. Garmer. Nova Iorque: Continuum, [1994, 1998] 1999. p. 107-112.

EPSTEIN, R et al. A Fluid-Continuum Model of Sexual Orientation. Journal of Homosexuality, 59:1356–1381, 2012.

EPSTEIN, R. Epstein Sexual Orientation Inventory (ESOI) v. 2.2, © 2006-2017 In: http://mysexualorientation.com/ Acessado 29/06/2017.

FREUD, S. 1905. Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. Em FREUD, S. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. vol. VII. Rio de Janeiro: Imago, 2006.

_________.1930. O mal-estar na civilização. Em FRED, S.: Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. vol XXI. Rio de Janeiro: Imago, 1996.

HEENEN-WOLFF, S (org). Homosexualités et stigmatisation: Bisexualité, homosexualité, homoparentalité. Nouvelles approches. Paris: Presses Universitaires de France, 2010.

 KINSEY, A C, POMEROY, W B e MARTIN, C E. Sexual Behavior in the Human Male. Filadélfia e Londres: W. B. Saunders Company, 1948.

KLEIN, F. The Bisexual Option: A Concept of One Hundred Percent Intimacy. 2ª ed. Nova Iorque: Haworth Press, [1978] 1993.

LEWIS, E S. Não é uma fase: Construções identitárias em narrativas de ativistas LGBT que se identificam como bissexuais. 267f. Dissertação (Programa de pós-graduação em Letras) – Faculdade de Letras, PUC-Rio, Rio de Janeiro, 2012.

MARCHETTI, V. L’invenzione della bisessualità: Discussioni tra teologi, medici e giuristi del XVII secolo sull’ambiguità dei corpi e delle anime. Milão: Bruno Mondadori, 2001.

MCDOUGALL, J. Teoria sexual e psicanálise. In: CECCARELLI, Paulo Roberto (org.). Diferenças sexuais. São Paulo: Escuta, 1999.