Vida sexual após o câncer de mama

O movimento popular internacionalmente conhecido como Outubro Rosa é comemorado em todo o mundo. O nome remete à cor do laço rosa que simboliza, mundialmente, a luta contra o câncer de mama. O movimento teve início no final do século XX na Califórnia com o objetivo de dar visibilidade à causa do câncer de mama, fortalecendo a importância do diagnóstico precoce e da sua prevenção e tratamento. Inicialmente, o movimento foi marcado
pela iluminação de monumentos históricos e tomou proporções mundiais. Atualmente, diversas instituições promovem atividades voltadas para a causa, tais como: debates, seminários, passeatas, eventos culturais e corridas esportivas.

O câncer de mama é o tipo de câncer mais comum entre as mulheres no mundo e no Brasil, depois do de pele não melanoma, respondendo por cerca de 28% dos casos novos a cada ano (INCA). O câncer de mama também acomete homens, porém é raro, representando apenas 1% do total de casos da doença. Relativamente raro antes dos 35 anos, acima desta idade sua incidência cresce progressivamente, especialmente após os 50 anos. Estatísticas indicam aumento da sua incidência tanto nos países desenvolvidos quanto nos em desenvolvimento.

A idade continua sendo o principal fator de risco, as taxas de incidência aumentam rapidamente até os 50 anos, outros fatores de risco bem estabelecidos são menarca precoce (menstruar antes dos 9 anos), nuliparidade (não ter filhos), idade do primeiro parto acima dos 30 anos, uso crônico de anticoncepcionais orais (há controvérsias), menopausa tardia e terapia de reposição hormonal (com determinados tipos de hormônio e de uso a longíssimo prazo há comprovações), assim como  história familiar de câncer da mama e alta densidade (muita glândula mamária) do tecido mamário.

A história familiar de câncer da mama está associada a um aumento de cerca de duas a três vezes no risco. Alterações em alguns genes responsáveis pela regulação e pelo metabolismo hormonal e reparo de DNA, como, por exemplo, BRCA1, BRCA2 e p53 aumentam o risco de desenvolver câncer da mama.

A mamografia, para mulheres com idade entre 40 e 69 anos, é recomendada como método efetivo para detecção precoce. A amamentação, a prática de atividade física e a alimentação saudável com a manutenção do peso corporal estão associadas a um menor risco de desenvolver esse câncer.

O câncer de mama para se tornar palpável deve ter aproximadamente um centímetro de diâmetro. E, para ele atingir esse tamanho demora anos,  o diagnóstico precoce é essencial mas difícil  pois oitenta por cento dos cânceres se manifestam como um tumor indolor, onde a minoria, apenas 10% das pacientes, sentem dor mesmo sem a palpação do tumor.

As principais estratégias de rastreamento (diagnóstico precoce) são:

  1. 20-40 anos com risco normal: exame clínico das mamas a cada 1 a 3 anos, autoexame periódico (preferência mensal, no máximo trimentral)
  2. A partir dos 40 anos com risco normal: exame clínico das mamas anual, mamografia anual, autoexame periódico.
  3. Para as mulheres de risco elevado para câncer da mama (com história familiar de câncer da mama em parentes de primeiro grau antes dos 50 anos de idade; história familiar de câncer da mama bilateral ou de ovário em parentes de primeiro grau em qualquer idade; história familiar de câncer da mama masculina; ou mulheres com diagnóstico histopatológico de lesão mamária proliferativa com atipia ou neoplasia lobular in situ): exame clínico da mama e a mamografia, anualmente, a partir de 35 anos.

O diagnóstico do câncer de mama, assim como seu tratamento, é cheio de medos; da morte, das mutilações e da dor, sendo um período lembrado por muita angústia, sofrimento e ansiedade.

O tratamento é baseado, principalmente, na cirurgia, radioterapia e quimioterapia, e há estimativas que 50% das mulheres sobreviverão por pelo menos 15 anos após o tratamento. Sobreviver a esse acontecimento significa ajustar-se à uma nova condição, com sequelas físicas, emocionais, psicológicas e sexuais.

Os tipos de cirurgia existentes são:

  • Tumorectomia: Excisão do nódulo ou tumor da mama.
  • Quadrantectomia: Excisão do quadrante da mama afetada (excisão do nódulo e margem de segurança)
  • Mastectomia Radical: remoção da mama, músculo peitoral e nódulos axilares linfáticos.
  • Mastectomia radical modificada: Remoção da mama, nódulos axilares linfáticos, com conservação do músculo do grande peitoral.
  • Mastectomia total simples: Ressecação apenas do tecido mamário, sem dissecação de gânglios linfáticos.
  • Mastectomia radical de “Halsted”: Excisão da mama, músculos peitorais, tecido adiposo adjacente, fáscias musculares e adenopatias axilares (procedimento raro)

O resultado do procedimento cirúrgico pode causar inibição, sentimentos de vergonha, angústia e constrangimento. A mastectomia (remoção completa da mama) pode alterar não só a autoimagem de feminilidade como a segurança sexual da mulher.

Os efeitos adversos da quimioterapia como cansaço crônico, perda de cabelo, constipação (prisão de ventre), náuseas, vômitos, ganho de peso, entre outros, não são nada convidativos para a sexualidade.

Em estudo realizado por Rodrigues e colaboradores em 2000 no Ceará, ficou evidente a importância, atribuída pelas mulheres, da participação do companheiro em todas as fases da doença, proporcionando um compartilhamento afetivo das emoções, dúvidas e preocupações. O medo do afastamento do parceiro, da indiferença e do abandono levou a um desequilíbrio emocional nas mulheres que já passavam pela vivência da doença e seu tratamento. Além disso, a mastectomia e os outros tratamentos contribuíram para a diminuição do desejo sexual, mudanças na imagem corporal, na percepção do próprio corpo e no autoconceito. As mulheres relatavam ausência de desejo sexual.

Refletindo sobre a sexualidade das mulheres mastectomizadas,  Gonçalves e colaboradores, em 2007, também no Ceará, concluíram que as mulheres mastectomizadas se sentem incapazes de dar prazer aos seus parceiros; essa insatisfação com o corpo influencia na qualidade do relacionamento conjugal, ela sente vergonha de se despir, de ser tocada pelo companheiro o que compromete a relação sexual e a vida conjugal.

Souto e Souza, em 2004 no estudo sobre a sexualidade da mulher após mastectomia observaram que quando são questionadas sobre como se sentem sexualmente após a mastectomia, elas expressavam uma sexualidade que para ser vivida necessitava do outro, uma vez que as respostas traziam sempre a figura do parceiro.

Em uma revisão de artigos sobre os efeitos do câncer de mama na sexualidade feminina, Verenhitach e colaboradores, em 2014 observaram que os principais fatores ligados ao prejuízo na função sexual eram cansaço crônico (fadiga), secura vaginal e dispareunia (dor na relação sexual), ganho de peso, imagem corporal pobre, medo de não se sentir sexualmente atraente e baixa autoestima, medo de perder a fertilidade, transição menopausal (entrada na menopausa) durante o tratamento e história de relacionamento conjugal considerado insatisfatório antes mesmo do diagnóstico do câncer.

A mama constitui uma das principais características da feminilidade, vinculada à sexualidade, ao erotismo e à maternidade, a sua perda pode resultar em questionamento sobre questões relacionadas a feminilidade e maternidade.

O diagnóstico de câncer promove experiências complexas, entre elas a consciência dos estigmas relacionados a palavra câncer e especificamente no caso do câncer de mama a necessidade de se submeter a tratamento cirúrgico, as vezes mutilante, além do  medo da morte e da necessidade de lidar com mudanças corporais que afetam a autoestima e consequentemente a sexualidade.

Faça o autoexame regularmente e sempre consulte um médico para orientá-la sobre seus riscos e necessidades para diagnóstico precoce e tratamento quando necessário.

O autoexame  não substitui o exame técnico feito pelo profissional de saúde com treinamento adequado, conforme destaca a Sociedade Brasileira de Mastologia.