O que a melatonina tem a ver com o sono?

Os ritmos circadianos são alterações regulares com características mentais e físicas que ocorrem no curso de um dia (do latim área + diem, “em torno do dia”). Muitos ritmos circadianos são controlados pelo “relógio biológico” do corpo. Este relógio está localizado no núcleo supraquiasmático, no hipotálamo, acima do quiasma óptico. A luz captada por fotorreceptores na retina gera estímulos que, através do nervo óptico, chegam ao núcleo supraquiasmático.

Os estímulos, a partir daí, atingem várias regiões cerebrais, inclusive a glândula pineal, que responde aos estímulos induzidos pela luz interrompendo a produção do hormônio melatonina. Os níveis de melatonina no organismo normalmente aumentam após o anoitecer, na escuridão. Isto leva as pessoas a se sentirem sonolentas. O núcleo supraquiasmático também controla funções sincronizadas com o ciclo sono-vigília, incluindo temperatura corporal, secreção de hormônios, produção de urina e alteração na pressão arterial.

Experiências com pessoas privadas da luz e outros indícios externos do tempo mostraram que a maioria dos relógios biológicos funciona mais num ciclo de 25 horas do que de 24 horas. Porém, como a luz solar ou outros estímulos luminosos podem ajustar o núcleo supraquiasmático, os nossos ciclos biológicos normalmente tendem a seguir o ciclo de 24 horas do sol e não o nosso ciclo inato.

Os ritmos circadianos podem ser afetados, em certo grau, por quase todos os tipos de sinalizadores externos de tempo, como o alarme do nosso despertador, o estardalhaço do caminhão de lixo e o horário das nossas refeições. A esses sincronizadores ou marcapassos externos, chamamos de zeitgebers (do alemão, “aquele que impõe o tempo”).

Quando viajantes passam rapidamente de um fuso horário para outro, ocorre uma ruptura dos seus ritmos circadianos, levando-os a sentir uma sensação desconfortável conhecida como jet lag, ou distúrbio de fuso horário. Por exemplo, quando  viajamos da Califórnia ao Rio de Janeiro, “perdemos” 5 a 6 horas de acordo com o nosso relógio corporal (porque há um ‘adiantamento’ no horário local). Iremos nos sentir cansados quando o alarme do relógio nos despertar às 8 horas da manhã seguinte porque, de acordo com o nosso relógio biológico, ainda são 5 horas da manhã. Em geral, levará alguns dias para que nossos ciclos biológicos se ajustem ao novo fuso horário.

Para reduzir os efeitos do jet lag, pode-se tentar manipular o relógio biológico através do uso da chamada terapia da luz. A pessoa é exposta a luzes especiais, muitas vezes mais brilhantes que as usadas comumente em casa, por várias horas, próximo à hora de levantar-se. Isto a ajuda a acertar os seus relógios biológicos e a se ajustar ao novo fuso horário.

Sintomas muito semelhantes ao jet lag são comuns em pessoas que trabalham à noite ou em regime de turnos. Devido aos horários de trabalho dessas pessoas estarem em desacordo com os poderosos sinalizadores que regulam o sono, como a luz solar, freqüentemente elas se tornam incontrolavelmente sonolentas durante o
trabalho e podem ter insônia ou outros problemas quando tentam dormir. Indivíduos que trabalham em regime de turnos apresentam maior risco de doença cardíaca, distúrbios digestivos e problemas emocionais e psiquiátricos, que podem estar relacionados à dificuldade para dormir. O número e a gravidade dos acidentes de trabalho tendem também a aumentar durante o turno da noite.

Muitas pessoas totalmente cegas apresentam problemas crônicos para dormir porque as suas retinas são incapazes de detectar luz. Estas pessoas apresentam uma espécie de jet lag permanente e insônia periódica porque os seus ritmos circadianos seguem mais o seu ciclo inato do que o de 24 horas.