O cérebro e a Doença de Alzheimer

A Doença de Alzheimer (DA) é uma patologia neurodegenerativa crônica que causa problemas de memória, pensamento e comportamento. É a forma mais comum de demência, contabilizando de 60 a 80% dos casos de demência. Estima-se que a doença afete 47.5 milhões de pessoas no mundo. No Brasil, ela atinge cerca de 1.2 milhão de pessoas, mas a maioria dos casos permanece sem diagnóstico.

Seu desenvolvimento é gradual e progressivo. Mas, se diagnosticada nos estágios iniciais, é possível retardar seu avanço. Um dos principais fatores de risco é a idade. A prevalência da doença é de 2% aos 65 anos e de 35% aos 85 anos.

O termo demência deriva da palavra latina demens, que é composta do prefixo de (sem ou não) e do termo mens (mente). Essa palavra passou a ter conotação médica no início do século XVIII através de Jean Etienne Esquirol, porém a condição clínica de deterioração cognitiva associada ao envelhecimento é bastante conhecida desde a antiguidade. Desde o Egito e Grécia Antiga, já existem registros descrevendo e formulando os primeiros conceitos de demência, mas foi no período greco-romano que Galeno caracterizou a demência como um distúrbio mental.

Em 1906, em um encontro alemão de psiquiatria na cidade alemã de Tübingen, o psiquiatra alemão Alois Alzheimer (1864-1915) descreveu pela primeira vez as características clínicas e patológicas de uma então chamada demência pré-senil. Na sua descrição, Alzheimer descreveu o caso da paciente Auguste Deter, cujo quadro clínico foi acompanhado por ele entre 1901 e 1906. A paciente havia sido internada em um asilo municipal em Frankfurt, levada pelo marido devido a alterações neuropsiquiátricas manifestadas a partir dos 51 anos.

Sabe-se que a Doença de Alzheimer (DA) provoca lesões cerebrais e degeneração progressiva das células cerebrais. A característica principal da doença é o depósito da proteína beta-amilóide nos espaços entre as células, criando placas denominadas senis. O agrupamento da beta-amilóide bloqueia as sinapses (conexão entre os neurônios)  e causa inflamações, provocando destruição dos neurônios.

Ainda não existe cura para a Doença de Alzheimer, mas um tratamento adequado permite aliviar os sintomas e reduzir o seu agravamento.

Nos estágios iniciais, a Doença de Alzheimer é mais difícil de ser detectada e os sintomas de outras demências são muito semelhantes. A Doença de Alzheimer pode ser classificada em três fases incluindo um estágio de pré-demência.

  • Pré-demência ou Déficit Benigno de Memória, Mild Cognitive Impairment (MCI) – o estágio de déficit benigno de memória caracteriza-se por deficiências de memórias isoladas, não causando comprometimento para as atividades da vida diária e não envolvendo perda de outras funções cognitivas, além da memória. Os portadores de MCI devem realizar acompanhamento médico periódico já que os quadros de MCI e Doença de Alzheimer (DA) iniciais são similares. Algumas pessoas com MCI não desenvolvem Doença de Alzheimer e eventualmente melhoram.
  • Estágio inicial ou leve – a fase inicial da Doença de Alzheimer caracteriza-se por perda de memória recente, dificuldade de raciocínio e expressão, repetitividade de questões, desorientação espaço-temporal, desmotivação e indícios de depressão. Apesar dos sintomas, o paciente é capaz de viver sua vida de forma independente. Os problemas na memória e raciocínio tornam-se evidentes para a família e para os médicos que acompanham o paciente.
  • Estágio moderado – este estágio é o mais longo dos demais, caracterizando-se pela progressão de deficiências cognitivas. As atividades diárias ficam impactadas pela doença. Os sintomas incluem esquecimento de fatos antigos, mal-humor, dificuldades de lembrar o endereço e o telefone pessoais, distúrbios no sono, riscos de se perder, mudanças na personalidade e comportamento repetitivo. O paciente pode ficar extremamente dependente de um cuidador ou da família, necessitando de ajuda para as tarefas cotidianas como se vestir e fazer a higiene pessoal.
  • Estágio grave – neste último estágio, todas as funções cognitivas estão seriamente ou completamente comprometidas. Os sintomas incluem incapacidade de comunicação, distúrbio comportamental, incontinência urinária e fecal, perda de peso e habilidades motoras. O paciente não é mais capaz de realizar as atividades da vida diária, dependendo de outras pessoas para sobreviverem.

O período de evolução do estágio leve para o grave é de cerca de 10 anos. Clinicamente, um paciente não pode ser diagnosticado como “provável doente de Alzheimer” até que ele apresente graves déficits cognitivos que afetam significativamente suas atividades cotidianas. Entretanto, alterações no cérebro causadas pela doença ocorrem décadas antes de surgirem os primeiros sintomas.

Os biomarcadores hoje disponíveis podem ser obtidos através de neuroimagem ou do líquido cefalorraquidiano com análise dos níveis de amiloide β1-42 e da proteína tau total e fosforilada. Os marcadores obtidos no líquido cefalorraquidiano apresentam boa acurácia diagnóstica, entretanto tem como fator limitante a necessidade da realização de punção lombar para coleta.

Pesquisas em análise de imagens de Ressonância Magnética (RM) e Tomografia por Emissão de Pósitrons (TEP) têm relatado altas acurácias na detecção de alterações neurodegenerativas. O uso de técnicas de neuroimagem é fortemente recomendado para o diagnóstico de demência em conjunto com exames clínicos, permitindo o exame do cérebro in vivo de maneira não invasiva.

A Ressonância Magnética fornece informações estruturais do sistema nervoso através da irradiação de ondas de rádio sob a influência de um forte campo magnético. É utilizada para detecção de alterações estruturais de doenças intracranianas como lesões e tumores. A Tomografia por Emissão de Pósitrons faz o mapeamento dos processos metabólicos do corpo humano. O exame mede o fluxo sanguíneo no cérebro através da injeção de substâncias radioativas e o monitoramento da absorção da radioatividade. As regiões mais ativas possuem um fluxo sanguíneo elevado, transportando mais substâncias radiativas para as áreas ativas. Áreas menos ativas consomem menos substâncias; a Tomografia por Emissão de Pósitrons é  utilizada principalmente como exame complementar para o diagnóstico clínico, sendo útil também para diferenciar demências vasculares e focais.

Do ponto de vista neuropatológico, observa-se no cérebro de indivíduos com Doença de Alzheimer atrofia cortical difusa, a presença de grande número de placas senis e novelos neurofibrilares, degenerações grânulo-vacuolares e perda neuronal. Verifica-se ainda um acúmulo da proteína b-amilóide nas placas senis e da microtubulina tau nos novelos neurofibrilares. Acredita-se que a concentração das placas senis esteja correlacionada ao grau de demência nos afetados. Transtornos da transmissão da acetilcolina e acetiltransferases ocorrem freqüentemente nos indivíduos afetados.

Cerca de um terço dos casos de Doença de Alzheimer apresentam familiaridade e comportam-se de acordo com um padrão de herança monogênica autossômica dominante, aquela em que o afetado é heterozigoto para o gene dominante mutado (Aa), uma vez que o gene A é bastante raro na população e quase nunca serão encontrados afetados com o genótipo AA. Os afetados (Aa) têm 50% de chance de ter filhos (Aa) também afetados pela doença. A doença aparece em todas as gerações e homens e mulheres são igualmente afetados.

Uma intrigante associação entre a Doença de Alzheimer e a síndrome de Down levou à descoberta do primeiro gene da Doença de Alzheimer no cromossomo 21, que é o cromossomo extra, envolvido na síndrome de Down. Indivíduos com síndrome de Down apresentam envelhecimento prematuro e praticamente todos apresentam doença de Alzheimer, clínica e neuropatologicamente confirmada, entre 40 e 50 anos de idade.