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Por que e como ocorre a Andropausa ( Deficiência androgênica no envelhecimento masculino)?

A testosterona é o principal andrógeno circulante, produzido e secretado principalmente pelas células de Leydig do testículo a partir de uma molécula de colesterol. A liberação diária de testosterona testicular é de 10 mg (miligramas), que vão se juntar a aproximadamente 500 μg (microgramas) de testosterona produzidos pelas glândulas adrenais e a conversão periférica (metabolização na gordura corporal) de androstenediona em testosterona.

Os precursores da testosterona são os ésteres de colesterol (27 átomos de carbono), pregnenolona (21 átomos de carbono) que será transformada em testosterona por 2 vias metabólicas.

A produção da testosterona testicular é iniciada pelo hormônio luteinizante (LH) e em menor medida por outros indutores expressados pelas células de Sertoli (produtoras de espermatozóides).  Esses indutores são constituídos por hormônios, neurotransmissores e fatores de crescimento. Destaca-se a interleucina 1, IL-1, que tem demonstrado capacidade de estimular a secreção de testosterona, outro fator indutor, a tri-iodotironina (T3), hormônio tireoidiano, atua sobre as células de Leydig.

O hipotálamo, no cérebro, produz e libera o hormônio liberador de gonadotrofina (GnRH) que é responsável por estimular a hipófise (também no cérebro) a produzir o LH (hormônio luteinizante) e o hormônio folículo-estimulatnte (FSH), tanto no homem quanto na mulher. O GnRH é produzido em pulsos a cada 90 a 120 minutos, sendo o pico no horário da manhã, ao despertar, apresentando menor concentração no horário da tarde. Tanto o hipotálamo como a hipófise têm receptores para andrógenos e estrógenos. Experimentalmente, os andrógenos puros, como a testosterona e a di-hidrotestosterona (DHT), reduzem a frequência da pulsação de LH, enquanto o estradiol reduz a amplitude, ou seja, diminuindo de modos diferentes a liberação do LH.

Na circulação sanguínea, 2% (0,5%-3%) da testosterona circulam livre como uma molécula com forte atividade e disponibilidade biológica; 38% (30% a 48%) circulam ligada a uma betaglobulina pela qual possui grande afinidade, sex hormone binding globulin, SHBG, ou globulina ligada aos hormônios sexuais; e 60% (50%-68%) restante circulam ligada à albumina, sendo essa uma frágil conjugação que facilita a sua disponibilidade.

A testosterona livre difunde-se passivamente dentro das células-alvo onde é convertida pela enzima 5α-redutase para di-hidrotestosterona (DHT), que é o andrógeno com principal atividade biológica. A testosterona, cuja meia-vida é de aproximadamente dez minutos, degrada-se no fígado e em menor quantidade nos tecidos periféricos, para ser eliminada na urina.

A enzima aromatase faz a conversão da testosterona e androstenediona em 17β-estradiol e estrona (hormônios femininos) . Esta aromatização desenvolve-se na maioria dos casos nos tecidos periféricos (tecido adiposo (gordura), mamário, prostático e em menor grau no tecido cerebral e ósseo), somente uma pequena parte no testículo; sendo a principal fonte dos aproximadamente 30 μg (microgramas) de estrógenos circulantes do homem, fechando desta forma o círculo metabólico da testosterona.

Os níveis de testosterona normalmente diminuem conforme avança a idade e aproximadamente 25% dos homens maduros têm de leve a moderada deficiência de testosterona. A testosterona é o mais abundante e potente andrógeno no ser humano.

Estudos  demonstraram progressiva diminuição dos níveis de testosterona com elevação habitual de LH no homem que envelhece. Esse aumento de LH é inadequadamente pequeno em resposta aos menores valores de testosterona, sugerindo que homens de idade avançada desenvolvem hipogonadismo secundário como consequência de uma menor função hipotalâmica e hipofisária.

Em um estudo finlandês, foi encontrada moderada elevação de LH com valores normais baixos de testosterona e não houve nenhuma correlação com o número de CAG (sequencia de nucleotídeos que formam o DNA – Citosina/Adenosina/Guanina), mas naqueles homens com menor número de CAG (menos de 23 tripletos) houve sintomas de depressão considerável e menor capacidade erétil. Este grupo de homens foi incluído como portadores de um hipogonadismo subclínico. Nesse estudo, conclui- -se que na maior presença da repetição do tripleto CAG diminui-se a atividade do receptor androgênico no hipotálamo com menor retroalimentação negativa e consequentemente aumento de testosterona sérica e recomenda-se que na avaliação da atividade androgênica do
homem incluam-se não apenas os níveis de testosterona, mas também a avaliação da distribuição de tripleto CAG, para a qual requer-se a técnica de reação em cadeia de polimerase, que ainda não está disponível em laboratórios gerais de endocrinologia.

A diminuição progressiva dos andrógenos no envelhecimento foi associada a outras situações clínicas, como mudanças cognitivas, disfunção erétil, alterações da composição corporal, resistência à insulina e doença cardiovascular, baixa densidade mineral óssea, crescimento prostático e a chamada síndrome de fragilidade do adulto com perda da massa muscular.

Em resumo, sabe-se que a estrutura do receptor androgênico varia em diferentes grupos étnicos e em diferentes idades, não existe uma associação definitiva entre os níveis hormonais androgênicos, os quais diminuem com o envelhecimento e a quantidade do grupo CAG do receptor androgênico, mas claramente foi demonstrado que um maior número de tripletos CAG tem maior prevalência de desordens neurológicas como a doença de
Kennedy, ginecomastia, diabetes mellitus e alterações na espermatogênese, e por outro lado, quanto menor o número de tripletos CAG no receptor androgênico, maior grau de expressão de androgenicidade, com início precoce de câncer prostático, hiperplasia prostática, menores valores de HDL colesterol, calvície.

Fonte: Consenso Latino-Americano sobre DAEM / [editores] Edgardo Becher, Luiz Otavio Torres, Sidney Glina. — São Paulo : PlanMark, 2013.