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Mecanismos de defesa vaginal

A primeira defesa vaginal é a localização, situada na região entre a raiz das coxas tem acesso limitado aos agressores, seja bactéria, fungo ou protozoários (vermes).  Além disso, por ser um canal virtual, permanece fechada a maior parte do tempo, dificultando o acúmulo de secreções. 

O epitélio vaginal (células das paredes vaginais) é formado por várias camadas de células epiteliais que constituem um tapete elástico capaz de sofrer distensão, retração e adaptação, inclusive contra a agressão de microrganismos patogênicos causadores de doenças).

A integridade (sem lesões) e o trofismo (qualidade de células no tecido)  da mucosa é o fator importante de proteção. As mulheres na menopausa (um ano sem menstruação) apresentam atrofia (células diminuídas, com baixa qualidade)  das mucosas (região interna dos pequenos lábios e dentro da vagina) e afinamento do epitélio , o que predispõe a fissuras e escoriações, que pode servir de porta de entrada para fungos e bactérias.

Em mulheres no período reprodutivo (menacme), o epitélio vaginal é constituído por várias camadas de células escamosas, distribuídas em quatro tipos celulares: basais, parabasais, intermediárias e superficiais.  Estas constituem uma barreira física exercendo papel de proteção.

Os lactobacilos produtores de ácido lático, peróxido de hidrogênio tem efeito protetor contra patógenos estranhos ao meio vaginal, limitando o crescimento dos microrganismos potencialmente nocivos ao equilíbrio do ecossistema vaginal.

A população (flora) vaginal normal é constituída por diferentes espécies de lactobacilos, eles inibem a adesão, crescimento e proliferação de microrganismos estranhos ao meio vaginal. No entanto, o ecossistema vaginal é dinâmico, sofrendo influência da idade, fase do ciclo menstrual, atividade sexual, uso de contraceptivos hormonais e não hormonais, gravidez, flutuações dos níveis de estrogênio e progesterona, higiene, estado emocional e utilização de remédios como antibióticos e espermicidas.

A colonização vaginal por lactobacilos sofre influencia da ação estrogênica, ou seja, sua concentração muda nas diferentes fases da vida da mulher. Nas recém-nascidas, que adquirem estrogênio transplacentário (pela placenta), a colonização por lactobacilos é abundante, reduzindo durante a infância até a primeira menstruação (menarca). Na vida reprodutiva a quantidade de estrogênio aumenta e com isso a população de lactobacilos, diminuindo na menopausa, onde a presença é mantida em cerca de 62% da fase reprodutiva, sendo mais presente em quem faz terapia de reposição hormonal.

Os lactobacilos produtores de ácido lático, peróxido de hidrogênio entre outras substâncias, reduzem o pH vaginal exercendo efeito protetor , limitando o crescimento de bactérias como os estreptococos, anaeróbios (bactérias não utilizam oxigênio) e Gardnerella.

Embora a Gardnerella vaginalis seja considerada patogênica, ela pode ser isolada em 5 a 60% da flora vaginal normal de mulheres saudáveis, e o Mycoplasma hominis está presente de forma não patogênica em 15 a 30% das mulheres sexualmente ativas.

O pH vaginal já foi considerado o fator principal de defesa vaginal, porém sabe-se que existem microrganismos tolerantes a acidez vaginal, além disso, muitos microrganismos tem a capacidade de alterar o pH no qual eles se reproduzem. Os fungos, por exemplo, tem capacidade de sobreviver bem em meios ácidos, com pH inferior a 3,5; além de suportarem temperaturas polares.

O pH vaginal afeta a solubilidade dos nutrientes, principalmente como o ferro, utilizado para aumentar a reprodução dos microrganismos como Candida albicans, Neisseria gonorrhoeae e Haemophilus influenzae.

Além do pH, a temperatura corporal é outro fator na proteção do ecossistema vaginal. Elevadas temperaturas elevam as proteínas de choque térmico, que são responsáveis pela manutenção da integridade vaginal, no entanto, aumento excessivo pode desequilibrar esse ecossistema.

Além desses fatores físicos, como pH e temperatura, a vagina tem uma resposta imune local, com a participação de células de defesa, dentre elas os macrófagos, linfócitos, plasmócitos, células de Langerhans, eosinófilos e mastócitos. Essas células de defesa controlam o crescimento bacteriano e fúngico mediante ativação de mecanismos de fagocitose (comer o invasor).

Apesar dos conhecimentos sobre os mecanismos de defesa, a instalação dos processos infecciosos vaginais é inevitável. As características do microrganismo e a habilidade de produção de substâncias que inativam os mecanismos de defesa fazem com que o equilíbrio vaginal seja quebrado e o agressor consiga ambiente favorável a sua sobrevivência.